Agro negócio brasileiro enfrenta custos maiores com fertilizantes e enxofre. Entenda os bilhões das refinarias e o impacto no produtor rural.
O agro negócio brasileiro está acostumado a enfrentar riscos. Clima, câmbio, juros, preços internacionais das commodities e custos de produção fazem parte da rotina do produtor rural. Entretanto, existe outro problema menos evidente que pode pesar cada vez mais no bolso de quem produz: a dependência brasileira de insumos estratégicos importados.
A discussão ganhou força após artigo de Antonio Cabrera, publicado na Gazeta do Povo, sobre os bilhões envolvidos em projetos de refinarias da Petrobras e a relação desses investimentos com a atual vulnerabilidade brasileira na área de insumos utilizados pelo agro negócio.
O assunto exige cuidado. Não é possível afirmar que os prejuízos das refinarias sejam os responsáveis diretos pelo aumento dos fertilizantes. Porém, os números mostram uma situação preocupante: o Brasil perdeu bilhões em grandes projetos industriais e, ao mesmo tempo, continua dependendo fortemente do mercado internacional para garantir produtos essenciais à produção agrícola.
O que significa o “agro negócio pagar duas vezes”?
A expressão utilizada por Cabrera resume uma tese econômica.
De um lado, a sociedade brasileira absorve os efeitos financeiros de investimentos bilionários que não apresentaram os resultados inicialmente esperados. De outro, o produtor rural continua pagando pela dependência externa de combustíveis, fertilizantes e outras matérias-primas fundamentais para produzir.
Nesse sentido, o agro negócio poderia enfrentar uma espécie de conta dupla.
Primeiro, existe o custo dos investimentos malsucedidos. Depois, aparece o custo da dependência externa, principalmente quando crises internacionais provocam aumento dos preços dos insumos.
Essa segunda conta ficou particularmente evidente em 2026, com a forte valorização do enxofre importado pelo Brasil.
Refinarias Premium: bilhões gastos e projetos abandonados
Entre os casos mais emblemáticos aparecem as refinarias Premium I e Premium II.
Os dois projetos foram planejados pela Petrobras para ampliar a capacidade brasileira de refino. Entretanto, eles acabaram cancelados antes de entrar em operação.
A Petrobras reconheceu aproximadamente R$ 2,8 bilhões em perdas contábeis relacionadas aos projetos.
O Tribunal de Contas da União também analisou os empreendimentos e documentou os problemas relacionados às refinarias.
Para o agro negócio, entretanto, a questão vai além do valor perdido. Quando um país deixa de concretizar projetos industriais estratégicos, ele também perde oportunidades de ampliar sua capacidade produtiva e reduzir determinadas vulnerabilidades externas.
Isso não significa que as refinarias Premium teriam tornado o Brasil autossuficiente em fertilizantes ou enxofre. Essa conclusão não encontra respaldo nos dados disponíveis. A questão está justamente na capacidade industrial que o país deixou de desenvolver.
Comperj: um dos maiores exemplos de explosão de custos
Outro caso importante envolve o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, conhecido como Comperj.
O projeto começou com uma estimativa de investimento de aproximadamente US$ 6,1 bilhões.
Com o passar dos anos, porém, as estimativas cresceram de maneira extraordinária.
O projeto chegou a apresentar estimativas de aproximadamente US$ 26,9 bilhões, depois US$ 30,5 bilhões e, em determinada configuração, aproximadamente US$ 47,7 bilhões para a construção integral do complexo.
O TCU também identificou uma estimativa de Valor Presente Líquido negativo de US$ 14,36 bilhões em uma das análises do empreendimento.
É importante fazer uma distinção. Os US$ 47,7 bilhões não representam simplesmente dinheiro perdido. Esse número corresponde a uma estimativa do investimento necessário para determinada configuração do projeto. Já o valor de US$ 14,36 bilhões está relacionado à estimativa de resultado econômico negativo.
Essa diferença evita uma interpretação exagerada dos números.

Abreu e Lima: de US$ 2,4 bilhões para US$ 20,1 bilhões
A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, apresenta outro exemplo impressionante.
O projeto inicialmente tinha uma estimativa de aproximadamente US$ 2,4 bilhões.
Posteriormente, os custos estimados chegaram a aproximadamente US$ 20,1 bilhões.
Isso representa uma multiplicação superior a oito vezes em relação à estimativa inicial.
Além disso, documentos do TCU registram perdas bilionárias relacionadas ao empreendimento. Em determinado levantamento, a Petrobras havia reconhecido aproximadamente R$ 15,463 bilhões em perdas relacionadas à RNEST.
Apesar dos problemas históricos, a refinaria continua sendo um ativo importante da Petrobras e passou por novos investimentos para ampliar sua utilização.
Os principais números dos projetos
| Projeto | Número de destaque |
|---|---|
| Refinarias Premium I e II | Cerca de R$ 2,8 bilhões em perdas contábeis |
| Comperj | US$ 6,1 bilhões na estimativa inicial |
| Comperj | Até US$ 47,7 bilhões em estimativa de investimento em determinada configuração |
| Comperj | VPL negativo estimado em US$ 14,36 bilhões |
| Abreu e Lima | US$ 2,4 bilhões na estimativa inicial |
| Abreu e Lima | Aproximadamente US$ 20,1 bilhões em estimativas posteriores |
| RNEST | Cerca de R$ 15,463 bilhões em perdas reconhecidas até 2021 |
Esses números pertencem a períodos e metodologias diferentes. Portanto, não devemos simplesmente somá-los para apresentar um único “rombo”.
O mais importante é observar a dimensão dos recursos envolvidos e os problemas encontrados nos projetos.
Onde o enxofre entra nessa história?
Aqui está um dos pontos mais importantes para entender a relação entre indústria e agro negócio.
O Brasil possui elevada dependência externa de enxofre. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química, aproximadamente 92% do enxofre consumido no país é importado.
Esse produto possui importância estratégica para a indústria química e também para a cadeia de fertilizantes.
O enxofre pode ser utilizado na produção de ácido sulfúrico, substância fundamental para diferentes processos industriais, inclusive na fabricação de determinados fertilizantes fosfatados.
Por isso, quando o preço do enxofre dispara no mercado internacional, a pressão pode chegar à cadeia de fertilizantes.
E, consequentemente, pode atingir o produtor rural.
O preço do enxofre disparou em 2026
Os números de 2026 ajudam a dimensionar o problema.
Segundo dados de comércio exterior analisados pelo setor, o preço médio do enxofre importado pelo Brasil entre janeiro e junho de 2026 chegou a aproximadamente US$ 535,96 por tonelada.
No mesmo período de 2025, o preço médio estava próximo de US$ 194,55 por tonelada.
Isso representa uma alta de aproximadamente 175%.
Em outras palavras, o Brasil passou a pagar quase 2,8 vezes mais pelo mesmo produto em termos de preço médio de importação.
Ao mesmo tempo, o volume importado caiu significativamente.
| Indicador | 1º semestre de 2025 | 1º semestre de 2026 |
|---|---|---|
| Volume de enxofre importado | Cerca de 1,22 milhão t | Cerca de 709 mil t |
| Preço médio | US$ 194,55/t | US$ 535,96/t |
A combinação chama atenção: o Brasil importou menos enxofre, mas pagou muito mais por tonelada.
Considerando esses valores médios, o desembolso aproximado teria passado de cerca de US$ 237 milhões para aproximadamente US$ 380 milhões no primeiro semestre.
Isso representa uma diferença próxima de US$ 143 milhões, mesmo com uma redução expressiva no volume importado.
O problema chega aos fertilizantes
O impacto sobre o agro negócio não termina no enxofre.
O Brasil também possui uma forte dependência de fertilizantes importados.
Dados oficiais mostram que o país importou aproximadamente 45,48 milhões de toneladas de fertilizantes químicos em 2025, movimentando cerca de US$ 15,46 bilhões.
Essa dependência deixa o produtor brasileiro exposto às oscilações do mercado internacional.
Quando há problemas geopolíticos, aumento dos custos de energia, dificuldades logísticas ou redução da oferta mundial, o preço dos fertilizantes pode subir rapidamente.
Consequentemente, o custo de produção agrícola também aumenta.
Quanto isso pode representar para o produtor rural?
Essa é uma das perguntas mais difíceis de responder.
Não existe um cálculo oficial que permita afirmar que determinada parcela do aumento dos fertilizantes em 2026 aconteceu exclusivamente por causa dos problemas históricos das refinarias.
O preço final dos fertilizantes depende de vários fatores.
Entre eles estão o preço internacional das matérias-primas, petróleo, gás natural, câmbio, fretes marítimos, custos portuários, oferta e demanda mundial, impostos e margens de comercialização.
Por isso, seria incorreto afirmar que o produtor rural está pagando, por exemplo, “R$ X bilhões” exclusivamente por causa dos antigos projetos da Petrobras.
Entretanto, podemos afirmar que a dependência externa aumenta a exposição do agro negócio aos choques internacionais.
E essa exposição possui um custo.
Fertilizantes têm peso importante no custo de produção
Para o produtor, fertilizante não é uma despesa secundária.
Dependendo da cultura, da região, da produtividade esperada e da tecnologia utilizada, os fertilizantes podem representar uma parcela significativa dos custos de produção.
Na soja e no milho, por exemplo, o impacto pode ser especialmente relevante.
Assim, uma alta expressiva nos preços dos fertilizantes reduz a margem do produtor quando ele não consegue repassar integralmente esse aumento para o preço da commodity.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre segurança de abastecimento deixa de ser apenas uma questão industrial e passa a interessar diretamente ao agro negócio.
A RNEST também produz ácido sulfúrico
Existe ainda um detalhe importante envolvendo a Refinaria Abreu e Lima.
A RNEST possui uma unidade chamada SNOX, que utiliza gases resultantes do processo de refino para produzir ácido sulfúrico, além de reduzir emissões de determinados poluentes.
A Petrobras iniciou a operação da unidade em dezembro de 2024.
A produção de ácido sulfúrico cria uma conexão interessante entre o setor de refino e a indústria química.
Entretanto, é importante não exagerar essa relação.
A SNOX não transforma simplesmente enxofre importado em fertilizante. Ela aproveita compostos de enxofre presentes nos gases do processo de refino para produzir ácido sulfúrico.
Portanto, a existência da unidade não significa que o Brasil tenha resolvido sua dependência externa de enxofre.
O Brasil está tentando reduzir a dependência externa
Apesar dos problemas históricos, a Petrobras voltou a direcionar investimentos para áreas relacionadas ao refino, petroquímica e fertilizantes.
No plano de negócios 2026–2030, a empresa prevê US$ 15,8 bilhões para o segmento que envolve Refino, Transporte, Comercialização, Petroquímica e Fertilizantes.
A Petrobras também trabalha para aumentar sua capacidade de processamento e retomou iniciativas relacionadas à produção de fertilizantes.
Um dos projetos que voltou ao centro das atenções é a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III, a UFN-III, em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul.
A estratégia mostra que o país voltou a discutir uma questão que havia perdido espaço durante anos: até que ponto vale a pena produzir internamente insumos considerados estratégicos?
Produzir no Brasil ou importar?
Essa discussão não possui uma resposta simples.
Importar pode ser economicamente vantajoso quando o produto externo chega ao país por um preço menor do que o custo de produção nacional.
Por outro lado, depender excessivamente do exterior cria vulnerabilidades.
Imagine, por exemplo, uma situação em que o preço internacional do fertilizante sobe 30%, o dólar se valoriza e o frete internacional aumenta simultaneamente.
O produtor brasileiro pode enfrentar os três impactos ao mesmo tempo.
Já uma produção nacional mais desenvolvida poderia reduzir parte dessa exposição, embora também tivesse custos próprios e não eliminasse completamente a necessidade de importações.
Por isso, o debate sobre o agro negócio brasileiro precisa considerar não apenas o preço do produto hoje, mas também a segurança de abastecimento no longo prazo.
O “pagar duas vezes” precisa ser entendido com cautela
A expressão utilizada por Cabrera é forte porque resume uma preocupação real.
Entretanto, ela não deve ser interpretada como se existisse uma conta oficial dizendo exatamente quanto cada produtor rural está pagando pelos prejuízos das refinarias.
Essa relação não está demonstrada dessa maneira.
O que os dados mostram é algo diferente e igualmente importante.
O Brasil realizou investimentos bilionários em grandes projetos industriais, enfrentou enormes problemas em alguns deles e, apesar disso, permaneceu altamente dependente do mercado externo para produtos estratégicos.
Ao mesmo tempo, o agro negócio tornou-se uma das maiores forças econômicas do país e passou a depender cada vez mais de uma cadeia global de insumos.
Quando ocorre uma crise internacional, a conta chega ao produtor.
O verdadeiro desafio para o agro negócio brasileiro
O grande desafio não consiste apenas em produzir mais soja, milho, café, algodão ou carne.
O Brasil precisa discutir também como garantir os insumos necessários para produzir tudo isso.
A força do agro negócio brasileiro depende de máquinas, combustível, fertilizantes, defensivos, logística, crédito, tecnologia e infraestrutura.
Se um desses componentes sofre uma forte elevação de preço, a rentabilidade do produtor pode diminuir.
Por isso, a discussão sobre refinarias, fertilizantes, enxofre e indústria química não deveria ficar restrita à Petrobras ou ao setor energético.
Ela também interessa diretamente ao campo.
Conclusão: a conta do agro negócio pode ser maior do que parece
Os números ajudam a explicar por que o assunto merece atenção.
De um lado, existem projetos de refino e petroquímica que envolveram dezenas de bilhões de dólares e apresentaram problemas graves de execução, custos e rentabilidade.
De outro, o Brasil continua importando grande parte dos fertilizantes e cerca de 92% do enxofre utilizado internamente.
Em 2026, o preço médio do enxofre importado praticamente triplicou em relação ao primeiro semestre de 2025, enquanto os fertilizantes também sofreram pressão.
Não é possível colocar toda essa conta na responsabilidade dos antigos projetos da Petrobras. O mercado internacional possui inúmeras outras variáveis.
Ainda assim, existe uma lição importante para o agro negócio brasileiro: depender excessivamente de fornecedores externos para produtos estratégicos pode transformar uma crise internacional em aumento direto do custo de produção dentro da porteira.
O produtor rural acaba ficando no meio dessa cadeia.
E é justamente por isso que o debate sobre indústria, fertilizantes, energia e segurança de abastecimento também é, no fim das contas, um debate sobre o futuro do agro negócio brasileiro.









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