Carnaval: uma alegria passageira de raízes pagãs

Carnaval: uma alegria passageira de raízes pagãs

14 de fevereiro de 2026 0 Por Antônio Garcia

Carnaval: tradição de raízes pagãs e alegria passageira. Entenda a diferença entre felicidade momentânea e a alegria que permanece.

A Quaresma é tradicionalmente situada entre dois momentos de intensa celebração: o Carnaval, que a antecede, e a Páscoa, que a encerra.

Embora ambos sejam associados à ideia de alegria, especialistas em espiritualidade cristã destacam que se trata de experiências profundamente distintas, tanto em origem quanto em significado.

Antes de tudo, é preciso compreender que a alegria humana não é, em si, algo negativo. Pelo contrário, ela faz parte da própria condição criada. A vida, entendida em sua dimensão biológica, é um dom, e alegrar-se com os bens cotidianos pode ser sinal de equilíbrio emocional e saúde espiritual.

No entanto, segundo a tradição teológica, o tipo de bem celebrado determina a qualidade da alegria vivida. É nesse ponto que surge a distinção central entre as duas celebrações.

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Assista ao vídeo abaixo

A alegria passageira dos bens terrenos

Primeiramente, o Carnaval representa uma forma de alegria vinculada aos bens imediatos e sensíveis. Mesmo quando vivido de maneira familiar e cultural, como ocorria em décadas passadas, com matinês infantis, fantasias e confetes, ele permanece associado à celebração da vida presente e de seus prazeres.

Além disso, a própria filosofia cristã reconhece que existe uma alegria ligada ao corpo. Conforme explica Santo Tomás de Aquino, a alegria nasce do encontro com um bem, assim como a tristeza surge diante do mal. Portanto, ao celebrar bens materiais ou experiências sensoriais, a pessoa experimenta uma satisfação legítima, porém limitada.

Nesse sentido, pequenas alegrias, como uma boa refeição, um encontro entre amigos ou momentos de lazer, não são condenadas pela tradição cristã. Inclusive, o pensamento clássico recorda que certos prazeres simples podem aliviar a tristeza e restaurar o ânimo humano.

Contudo, há um ponto de alerta: quando essas alegrias passageiras ocupam o lugar do sentido último da vida, elas deixam de ser sinais da bondade divina e passam a funcionar como substitutos do essencial.

A alegria que aponta para o eterno

Por outro lado, a Páscoa simboliza uma alegria de natureza diferente. Enquanto o Carnaval está centrado na celebração da vida presente, a Páscoa remete à vitória sobre a morte e à promessa de eternidade.

Nesse contexto, a espiritualidade cristã ensina que as alegrias deste mundo são transitórias. A própria Santa Teresinha do Menino Jesus, em sua obra História de uma Alma, descreve como percebeu ainda na infância que as satisfações terrenas rapidamente se dissipam. Assim, a experiência humana confirma o caráter efêmero das conquistas materiais.

Além disso, a tradição bíblica apresenta exemplos de uma alegria que não se limita ao imediato. O primeiro milagre de Jesus Cristo, nas Bodas de Caná, revela que os bens da vida podem ser celebrados. Entretanto, o ensinamento central aponta para uma alegria que transcende o tempo e as circunstâncias.

Desse modo, a Quaresma surge como período de reflexão e ordenação interior. Não se trata de negar as alegrias humanas, mas de situá-las corretamente. Enquanto a alegria ligada apenas aos bens terrenos tende a ser breve, a alegria fundamentada na dimensão espiritual é apresentada como duradoura e transformadora.

Por fim, ao transitar entre Carnaval e Páscoa, o calendário cristão propõe uma pergunta essencial: qual alegria guia as escolhas humanas? A resposta, segundo a tradição, define não apenas um período litúrgico, mas o rumo da própria existência.

Referências:

  • Santo Tomás de Aquino. Suma Teológica.
  • Santa Teresinha do Menino Jesus. História de uma Alma.
  • Bíblia Sagrada, Evangelho segundo João 2,1-11.